Síntese de Evidências para Políticas de Saúde

Descrição do problema

Principais causas para o baixo uso de evidências

Revisões sistemáticas sobre a percepção dos tomadores de decisão em relação ao uso de evidências destacaram que o contato entre pesquisadores e tomadores de decisão, a disponibilidade de evidências e a habilidade em avaliar e interpretar evidências constituem elementos chaves para facilitar o uso de evidências científicas na elaboração de políticas (INNVÆR et al., 2002; OLIVER et al., 2014). Somadas às dificuldades de comunicação entre gestão e academia, estão pressões e vieses da publicação científica, que afetam a difusão do conhecimento nos países de média e baixa renda. Sabe-se que cerca de 90% das publicações na área de saúde no ano de 2001 foram produzidas por pesquisadores de países de alta renda (OMS, 2004), além disso, a literatura indica que artigos sobre problemas típicos de países com menor renda são menos prováveis de serem publicados (HORTON, 2003), dificultando o entendimento dos processos e problemas destes cenários nacionais. Quando a questão é a tradução do conhecimento (knowledge translation), análise da mídia impressa em países de baixa e média renda (PBMR) demonstrou que os países americanos apresentaram a segunda mais baixa divulgação de evidências de pesquisas em saúde no mundo, ficando atrás apenas de países do Oriente Médio (CHEUNG et al., 2011). Além disso, o mesmo estudo revelou que os PBMR apresentaram menor número de artigos sobre os diálogos de políticas.

Uma pesquisa conduzida na Austrália, que entrevistou pesquisadores e tomadores de decisão, registrou que tomadores de decisão raramente usam evidências para formulação e avaliação de políticas de saúde (CAMPBELL et al., 2009). Adicionalmente, o estudo apontou que tomadores de decisão também têm dificuldades para usar sínteses de pesquisa e que menos de 30% dos pesquisadores usam estratégias específicas para informar os tomadores de decisão. Como possível consequência desses fatores, uma revisão sistemática indicou uma grande variação (7-40%) no uso direto de evidências científicas por parte dos tomadores de decisão (INNVÆR et al., 2002).

Em países com alta renda, o uso de evidências científicas vem sendo promovido amplamente desde a década de 1990. O Reino Unido foi um dos primeiros países a perceber que as políticas deveriam ser moldadas por evidências e não por pressões pontuais (CABINET OFFICE, 1999). No Brasil, pouco se sabe sobre o nível de utilização de evidências científicas na formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas para a saúde, entretanto, supõe-se que esse nível ainda seja baixo.

O que está sendo feito para enfrentar o baixo uso de evidências científicas

Atualmente, as principais iniciativas para aumentar o uso das evidências nas políticas de saúde estão associadas a iniciativas como da rede EVIPNet (Rede para Políticas Informadas por Evidências). No Brasil, a rede é coordenada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde. O objetivo principal da EVIPNet Brasil é promover o uso de evidências científicas nas tomadas de decisão para saúde (EVIPNET BRASIL, 2013). A rede vem implementando e capacitando Núcleos de Evidências (NEvs) para promover processos de institucionalização do uso das melhores evidências científicas na formulação, implantação e avaliação de políticas nos diferentes níveis do sistema público de saúde. Os profissionais que trabalham nos NEvs são capacitados para utilizar as Ferramentas SUPPORT (Supporting Policy Relevant Reviews and Trials) para políticas informadas por evidências (LAVIS et al., 2009). As ferramentas SUPPORT foram concebidas para auxiliar o desenvolvimento de políticas informadas por evidências e são adaptáveis a diferentes cenários de disponibilidade de recursos humanos e materiais. As ferramentas são baseadas em questões voltadas para os tomadores de decisão que apoiam a sistematização do processo de identificação de problemas e potenciais soluções, bem como barreiras e facilitadores na formulação e implementação de políticas públicas.

A grande desigualdade socioeconômica ainda existente no Brasil e as disparidades regionais tornam a apreciação e uso de evidências científicas um grande desafio para os tomadores de decisão nos diferentes níveis de atuação (federal, estadual e municipal). Para que o uso de evidências científicas seja realizado de forma eficiente, a realidade local deverá ser levada em consideração. Nem todas as opções para o enfrentamento de determinados problemas serão eficientes em todos os contextos. Além disso, a percepção dos usuários e trabalhadores da saúde e a resistência a determinadas políticas podem gerar barreiras à implementação das opções, mesmo aquelas com forte rigor científico e metodológico.